terça-feira, 27 de março de 2012

O martelo. O sangue. A dor. E a esperança.

Eu sou um cara. Um cara de merda.
Eu já fui melhor.





Faz tempo. Você ainda existia na minha vida como uma ingênua menina que vivia se alimentando de pizza e comidas práticas, e pesava sobre minhas costas esse nosso amor de concreto (concreto mais parecido com gelatina). Desculpe-me, minha nobre. Por todas essas confissões dolorosas como a força do martelo que usaste pra tentar me assustar causou a mim.
No começo foi tudo lindo e meloso (semelhante à calda dos sorvetes prontos), como todo relacionamento bem rotulado. Mas você foi a primeira a não me fazer pouco surpreso com a sensação que crescia dentro de mim de imediato (mas veio aos poucos) e a última que me deixou em cubos, isso talvez se. Você é forte o suficiente para ficar protegendo tanto o seu coração quanto o meu? Quem é o traidor? Quem é o assassino no meio da multidão?*
(...)Flashback

Mas eu sou um cara. Um cara que te ama. Um cara.


-Vem cá, minha dona. Me agarra pelo pescoço, se envolva nos meus braços. Eu aperto tua cintura e te mostro a sintonia da música. Se a senhorita quiser, eu mostro quem manda aqui. Mas me perdoe, dessa vez quem mandará não será você.
- Faz o que quiser comigo.
- Não ouse.

- Ouso. Faz.


(...)

Três anos se foram num fechar de olhos e tudo o que eu quero é que um ano passe num piscar. Relação que envolvia sexo de forma que qualquer ser no mundo há de querer, mas não a cumplicidade para dividir contas, principalmente a do supermercado envolvendo alimentos não-pré-cozidos. Tentamos.
Você deu a louca e soltou as feras pelo quintal da sua mente.  A segunda gaveta.
Você estava com tudo pronto para tentar me atacar. Me assustar.

Pegou-o com as duas mãos. O martelo. Pressionou-o sobre aquele troço.

(Todas as coisas que vivemos vindo em mente:
*Nós juntos num parque, comendo sanduíches do McDonalds
*Nós, tomando banho juntos
*Seu sorriso ao acordar
*Meu olhar profundo no teu
*Eu na cozinha preparando o almoço e você sentada com o banquinho de plástico e sua cerveja na mão direita, me olhando, ingênua)

Pegou-o com as duas mãos. O batedor de carne que guardávamos na segunda gaveta da cozinha, mas que só eu  utilizava porque você não sabia fritar um ovo e vivia quase sempre de FastFood.
Com toda a força, foi pra cima, pressionou, e sangrou.

Você começou a bater na carne, amaciando-a, (aquele bife que eu nem me lembrava de ter ido ao mercado comprar, já que nunca comprávamos coisas semelhantes se não fosse para eu preparar). Picou-a, colocou-a na panela e fez o almoço.
Fiquei atônito, te fitando. Que porra era aquela? Você aprendeu a cozinhar?
E eu achando que esse dia nunca chegaria. Quanta força. Me causou dor, porque você com toda essa animação de me mostrar seus novos dotes, rachou o mármore da nova pia da nossa cozinha.
Quanta dor, Luísa. E orgulho. Tudo bem.
Dor.

Eu já fui melhor. Antes eu era o consagrado imaginário Chef dessa cozinha, e dessa casa. 
Eu era apenas um cara de merda, mas quando você chegou pra valer, me tornei um homem. Um homem que agora se alimenta de comida fresca e caseira. E que aprendera o que é um sentimento que vem aos poucos mas que chega: amor. E susto. (Brincadeirinha, Luísa. Sua cozinheira insana).




*Parte traduzida da música Heavy In Your Arms-Florence + The Machine

 

3 comentários:

sonhadora disse...

O súbito entusiasmo;
Foi isso que senti,
ao ler-te.


Paz.
Fiquei a seguir.

Sahara Higino disse...

Não sei o motivo mas,
o comentário acima,
'sendo ele, meu', foi-se
com outro perfil.

Esse é o real. (risos).
Um abraço!

Crispi. disse...

Adorei!
Achei que tinha tido um fim, mas me surpreendi com a reviravolta do final.
Você escreve muito, muito bem. Gostei mesmo!
Beijos :)