quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Veneno anti-monotonia.

Não quero passar por ruas e sentir tanto mofo. Mas eis que sentir tantas coisas ao lado de alguém que há de valer a pena, pode parecer permitido. Torno permitido. E não despermito.  Mofo pode ser bem além de fungos e bactérias entre zilhões de coisas, zilhões de coisas que o permitem entrar. 
Não quero passar por ruas e sentir tanto mofo. Mas eis que sentir tantas coisas ao lado de alguém que vale a pena, parece permitido. Tornei permitido. Não despermito. Mofo pode ser extremamente além de azedume,  monotonia contínua, olheiras no rosto e noites mal-dormidas.
Não quero passar por ruas que me envolvem e sentir mofo. Eis que sentir coisas ao lado de alguém há de valer à pena, é permitido. Muitos o tornam. Jamais permitirei que seja despermitido. Mofo pode ser bem mais do que lixo-na-cuca, uísques quentes que descem queimando e dois maços de cigarro consumidos por dia.
Quero passar por ruas descuidadas e infamiliares e sentir mofo. Eis que sentir coisas é permitido. Me permito. E jamais despermito o que antes tratei como válido. Mofo é não sentir-se e notar-se só ao meio de chuvas e esgotos transbordando.
Quero passar por ruas familiares, ou não, e sentir. Sentir coisas ao lado de alguém, um certo alguém, é permitidíssimo. Ou não. Me permito. Sou alguém. Me sinto. Não despermito. Jamais ei de. Mofo pode ser algo que deixei para trás ao descobrir ruas novas, onde não chove, onde não há cassambas de lixos entupidas deles. Onde há uma loja, em uma certa rua. Nesta loja, encontrei-me. Veneno-anti-monotonia-amém. Encontrado. Jamais ei de ser ninguém. Jamais despermitirei-me de vagar por ruas devido à podridão nelas presente. Mofos não me atingem mais.




Eduardda Carvalho

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Minucioso fim.

Nem que fosse por um segundo. Mas queria quase que muito, que sentir não fosse assim, tão vital para si mesmo. Ah, queria. Mas também, a coisa é sentir nada. Apenas não sentir.
Ele, já acabado, já desconhecido (Já não era possível reconhecer a si mesmo), já cansado de tanta coisa  -de tanta merda, para ser bem claro - se senta no sofá - tão velho que já não era possível recordar quando foi comprado- acende um cigarro, aproxima o copo de uísque para perto de si. E automaticamente, solta palavras, como se fosse uma só, como um pequeno e imperceptível sopro:
–  Que arranques sentimentos mórbidos, cálidos de mim. Arranque começando pelas veias, e termine por órgãos, talvez me mate, talvez me mantenha vivo. Aliás, quem és tu, que me ouves?
Olha ao redor. A casa continua vazia, intacta, não perfumada. Traga seu cigarro aceso, toma seu uísque já quente, que desce queimando pela garganta. E tantas coisas tem descido queimando ultimamente. Coisas tão distintas de um simples uísque. E então, começa a pensar, pensar, pensar. Pensa mais do que gente grande que é. Raramente coisas como esta acontecem, e oh, amém, agradecido estou, pensa, com aquele demasiado fútil sorriso de canto. Fútil não, tudo bem. Sincero demais. Aprofundado demais. Sorrisos sinceros e aprofundados são assim: perigosos. Ele havia acordado assim mesmo, perigoso demais. E que todos se afastem, pois um homem com um copo de uísque e um maço de cigarro pode ser perigoso quando misturado com a fúria do desprezo causado pela sociedade fodidamente preconceituosa.
E então conclui:
- Ah, cassete, tu que ouves... Tu és meu reflexo no espelho. Vais cumprir com tua promessa? Vais arrancar sentimentos do qual fui contaminado andando perto de pessoas sem valores? AGORA, que arranques de mim.
Pois então, vai até a cozinha, abre a gaveta. Repara em sua coleção de facas, e começa com sua promessa. Seu próprio reflexo, incrédulo, de frente para si, começa a obra.
A faca começa a entrar por entre o peito, arrancando os sentimentos mais profundos primeiro. Afinal, é como dizem: se varres a casa, tire primeiro o grosso da poeira. O minucioso fica para depois.


Era mais uma catástrofe provocada pela sociedade. Pela atual merda de sociedade e seus valores também de merda.
E era mais um fim.


Eduardda Carvalho