terça-feira, 9 de agosto de 2011

Minucioso fim.

Nem que fosse por um segundo. Mas queria quase que muito, que sentir não fosse assim, tão vital para si mesmo. Ah, queria. Mas também, a coisa é sentir nada. Apenas não sentir.
Ele, já acabado, já desconhecido (Já não era possível reconhecer a si mesmo), já cansado de tanta coisa  -de tanta merda, para ser bem claro - se senta no sofá - tão velho que já não era possível recordar quando foi comprado- acende um cigarro, aproxima o copo de uísque para perto de si. E automaticamente, solta palavras, como se fosse uma só, como um pequeno e imperceptível sopro:
–  Que arranques sentimentos mórbidos, cálidos de mim. Arranque começando pelas veias, e termine por órgãos, talvez me mate, talvez me mantenha vivo. Aliás, quem és tu, que me ouves?
Olha ao redor. A casa continua vazia, intacta, não perfumada. Traga seu cigarro aceso, toma seu uísque já quente, que desce queimando pela garganta. E tantas coisas tem descido queimando ultimamente. Coisas tão distintas de um simples uísque. E então, começa a pensar, pensar, pensar. Pensa mais do que gente grande que é. Raramente coisas como esta acontecem, e oh, amém, agradecido estou, pensa, com aquele demasiado fútil sorriso de canto. Fútil não, tudo bem. Sincero demais. Aprofundado demais. Sorrisos sinceros e aprofundados são assim: perigosos. Ele havia acordado assim mesmo, perigoso demais. E que todos se afastem, pois um homem com um copo de uísque e um maço de cigarro pode ser perigoso quando misturado com a fúria do desprezo causado pela sociedade fodidamente preconceituosa.
E então conclui:
- Ah, cassete, tu que ouves... Tu és meu reflexo no espelho. Vais cumprir com tua promessa? Vais arrancar sentimentos do qual fui contaminado andando perto de pessoas sem valores? AGORA, que arranques de mim.
Pois então, vai até a cozinha, abre a gaveta. Repara em sua coleção de facas, e começa com sua promessa. Seu próprio reflexo, incrédulo, de frente para si, começa a obra.
A faca começa a entrar por entre o peito, arrancando os sentimentos mais profundos primeiro. Afinal, é como dizem: se varres a casa, tire primeiro o grosso da poeira. O minucioso fica para depois.


Era mais uma catástrofe provocada pela sociedade. Pela atual merda de sociedade e seus valores também de merda.
E era mais um fim.


Eduardda Carvalho

2 comentários:

Helô disse...

MEW DEUS!!!
Não sabia que escrevia tão bem assim... Nossa... fantástico!
Sem palavras!

Saudades!
Beijos

Crispi. disse...

Gostei muito daqui, Me arrepiei! Quero uma faca dessas também, pra arrancar isso tudo que a sociedade nos impõe. Ou quem sabe, um ou dois cigarros e um copo de uísque?