sábado, 15 de junho de 2013

Passeio melancólico (Sei o melancólico)



 Sabe, eu vim precipitada e aliviadamente. Talvez por engano, persistência, ou realmente por vontade de dar uma voltinha por aí, que poderia levar meses, alguns anos, ou quem sabe, tantas décadas.
Não sei exatamente qual meu papel aqui. Meu papel talvez seja preencher as folhas de papel com transbordações do que as coisas me preenchem. Pareço e sinto estar contida não no que me contém, no que me possui, mas no que desejo possuir. Eu vim para isso, e por isso ainda permaneço aqui. Mas não ei de permanecer. Quero mesmo é expandir-me pro que quiser à mim, pra quem quiser, e fazer querer quem não quer. Arrependimento ainda assim torna-se material para recordar.
Almejo conter os sons, as músicas, os mais belos poemas e textos, traços, gentilezas. Os calores, as friezas. Amores, desamores, súbitos entusiasmos de uma só noite ou dia. Gozar do gozo que sentirei. Cada ponto de meu passeio eu anseio por não esquecer.
Esparramar-me-ei. Direi à tantos as palavras de mais doce aroma e darei os beijos de mais suave e profundo sabor. Doarei-me por inteira e conhecerei seus inteiros também. Compartilharei de minha melancolia e júbilo. Mostrarei minhas faces e permitirei que anseie, almeje por mim, ou que simplesmente me escarre para fora de sua estrada. Irei-me. Não por desamor ou ausência prévia ou definitiva, mas porque cada um deve entender a sua hora.
Conhecerei lugares de certos corpos por mais de dez vezes e outros nem sequer uma inteira e completa vez; para nunca mais.
Ah, passear. Para ser, deixar-se levar, mas nunca influenciar.
Permanecer o quanto for,
Ser o que a vida me permitir criar e compor.
Compor à mim, do jeito que for, do jeito que não voltar(á).
Todo passeio tem seu fim, e o fim é a casa, o lar; o inalcançável abismo de onde criei minhas raízes que fincam-se no acaso.

"Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva."